sexta-feira, 24 de julho de 2009

Stanislaw Ponte Preta (Sérgio Porto)

Sérgio Porto, por ele mesmo, "Auto-retrato do artista quando não tão jovem"

"ATIVIDADE PROFISSIONAL: Jornalista, radialista, televisista (o termo ainda não existe, mas a atividade dizem que sim), teatrólogo ora em recesso, humorista, publicista e bancário.

OUTRAS ATIVIDADES: Marido, pescador, colecionador de discos (só samba do bom e jazz tocado por negro, além de clássicos), ex-atleta, hoje cardíaco. Mania de limpar coisas tais como livros, discos, objetos de metal e cachimbos.

PRINCIPAIS MOTIVAÇÕES: Mulher.

QUALIDADES PARADOXAIS: Boêmio que adora ficar em casa, irreverente que revê o que escreve, humorista a sério.

PONTOS VULNERÁVEIS: Completa incapacidade para se deixar arrebatar por política. Jamais teve opinião formada sobre qualquer figurão da vida pública, quer nacional, quer estrangeira.

ÓDIOS INCONFESSOS: Puxa-saco, militar metido a machão, burro metido a sabido e, principalmente, racista.

PANACÉIAS CASEIRAS: Quando dói do umbigo para baixo: Elixir Paregórico. Do umbigo para cima: aspirina.

SUPERTIÇÕES INVENCÍVEIS: Nenhuma, a não ser em véspera de decisão de Copa do Mundo. Nessas ocasiões comparativamente qualquer pai-de-santo é um simples cético.

TENTAÇÕES IRRESISTÍVEIS: Passear na chuva, rir em horas impróprias, dizer ao ouvido de mulher besta que ela não tão boa quanto pensa.

MEDOS ABSURDOS: Qualquer inseto taludinho (de barata pra cima).

ORGULHO SECRETO: Faz ovo estrelado como Pelé faz gol. Aliás, é um bom cozinheiro no setor mais difícil da culinária: o trivial.

Assinado,  Sérgio Porto, agosto de 1963."

Filho de Américo Pereira da Silva Porto e de D. Dulce Julieta Rangel Porto, Sérgio Marcos Rangel Porto, um cidadão acima de qualquer desfeita, nasceu no Rio de Janeiro em pleno verão, no dia 11 de janeiro de 1923, e ficou famoso anos depois sob o pseudônimo de Stanislaw Ponte Preta, emprestado à Oswald de Andrade (vide Memórias de Serafim Ponte Grande). Foi casado com Dirce Pimentel de Araújo, com quem teve três filhas: Gisela, Ângela e Solange.

Dizem seus estudiosos que no citado livro teria encontrado seu grande filão:a irreverência. Começou uma obra carioquíssima, até hoje insuperável, transpondo para  jornais, livros e revistas o saboroso coloquial do Rio de Janeiro. Afirmam, também, que as melhores crônicas são aquelas onde a disposição de desfazer o sentido de uma palavra ou de uma situação não se manifesta apenas no final do enredo, mas parece atingir a estrutura da narrativa; quer dizer, a partir de pistas falsas, a história é conduzida visando a um final que não acontece, substituído por outro, totalmente inesperado (vejam Menino Precoce e A Charneca, por exemplo).

Era um mestre das comparações enfáticas:

"Mais inchada do que cabeça de botafoguense"
"Mais assanhado do que bode velho no cercado das cabritas"
"Mais suado do que o marcador de Pelé"
"Mais duro do que nádega de estátua"
"Mais feia do que mudança de pobre"
"Mais murcho do que boca de velha"

Traçou, em 12 palavras, o retrato de uma época , os tais anos dourados nada permissivos, quando o preconceito prevalecia, principalmente em matéria de sexo:

"Se peito de moça fosse buzina, ninguém dormia nos arredores daquela praça". Antes da liberação sexual, as praças e outros cantinhos escuros eram, então, um buzinaço.

Criador de Tia Zulmira, Rosamundo e Primo Altamirando, foi com seu Festival de Besteira que Assola o País - FEBEAPÁ, lançado em plena vigência da Redentora, apelido do golpe militar de 1964, que ele alcançou seu grande sucesso. Stanislaw afirmava ser difícil precisar o dia em que as besteiras começaram a assolar o Brasil, mas disse ter notado um alastramento desse festival depois que uma inspetora de ensino no interior de São Paulo, portanto uma senhora de nível intelectual mais elevado pouquinha coisa, ao saber que o filho tirara zero numa prova de matemática, embora sabendo tratar-se de um debilóide, não vacilou em apontar às autoridades o professor da criança como perigoso agente comunista.

Outras besteiras colhidas pelo autor:
"No mesmo dia em que o governo resolvia intervir em todos os sindicatos, resolvia mandar uma delegação à 16a. Sessão do Conselho de Administração da OIT, em Genebra. Ao Brasil caberia exatamente fazer parte da Comissão de Liberdade Sindical. Na mesma ocasião, um time da Alemanha Oriental vinha disputar alguns jogos aqui e então o Itamarati distribuiu uma nota avisando que eles só jogariam se a partida não tivesse cunho político. Em Mariana, MG, um delegado de polícia proibia casais de se sentarem juntos na única praça namorável da cidade, baixando portaria dizendo que moça só podia ir ao cinema com atestado dos pais. Em Belo Horizonte, um outro delegado distribuía espiões pelas arquibancadas dos estádios. Dali em diante quem dissesse mais de três palavrões ia preso."

Na mesma época (1954) em que o jornalista Jacinto de Thormes publicou na revista Manchete a lista das "Mulheres Mais Bem Vestidas do Ano", Stanislaw, que escrevia na mesma revista sobre teatro-rebolado, não quis ficar por baixo e inventou a lista das "Mulheres Mais Bem Despidas do Ano". Com a grita das mães das vedetes, passou a usar uma expressão ouvida de seu pai — "Olha só que moça mais certa" — e estavam, assim, criadas as "certinhas" do Lalau. De 1954 a 1968 foram 142 as selecionadas. Dentre outras, podemos citar Aizita Nascimento, Betty Faria, Brigitte Blair, Carmen Verônica, Eloina, Íris Bruzzi, Mara Rúbia, Miriam Pérsia, Norma Bengell, Rose Rondelli, Sônia Mamede e Virgínia Lane.

Ao contrário do que parecia ser -- um cara folgado, brincalhão, gozador e pouco chegado ao labor, Sérgio Porto, por suas inúmeras atribuições, era um lutador. Nos últimos anos de vida tinha uma jornada nunca inferior a 15 horas de trabalho por dia."Só estou levantando o olho da máquina de escrever pra botar colírioHoje fui gravar na televisão e antes foi aquela batalha contra as teclas. Estou trabalhando demais, outra vez. Só para esta semana: seis Stanislaws, um Fatos & Fotos, um final apoteótico para o novo programa do Chico Anísio, roteiro e script para aquela bosta chamada Espetáculos Tonelux, depois quadros humorísticos para a TV Rio, Miss Campeonato, Da Boca pra Fora, o programa de rádio Atrações A-9, além da revisão do livro O Homem ao Lado que será reeditado no próximo mês e da gravação do programa Qual é o assunto?" Para alguém que teve seu primeiro infarto ao 36 anos, era demais.

"Tunica, eu tô apagando". Essas foram as últimas palavras ditas pelo autor ao sofrer seu derradeiro infarto, no dia 29 de setembro de 1968.

Paulo Mendes Campos, o excelente e tão esquecido cronista mineiro, traça um perfil do autor em um texto cheio de humor e de dor pelo falecimento de Stanislaw Ponte Preta (in "O Anjo Bêbado", Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1969, pág. 7).

SÉRGIO E STANISLAW PONTE PRETA

O diabo o é que todo mundo pensa que sou um cínico; ninguém acredita que sou um sentimentalão que não agüenta uma gata pelo rabo.

Sérgio me dizia isso a milhares de metros de altitude, copo de uísque na mão, rumo a Buenos Aires. Ao saber que eu tinha resolvido assistir ao jogo Brasil e Uruguai, no Campeonato Pan-Americano de 1959, veio procurar-me com uma ansiedade incomum: precisava afastar-se do Rio de qualquer jeito, me disse, tinha decisivos assuntos íntimos sobre os quais queria pensar.

Sendo assim, por que ir a Buenos Aires? Não fiz a pergunta por entendê-lo: Sérgio possuía o talento de viver em diversas faixas ao mesmo tempo; Buenos Aires lhe calhava numa instância de decisões pessoais porque o recolhimento do hotel se somava aos benefícios do torneio de futebol, da companhia dos amigos, das anedotas jornalísticas e até mesmo dos restaurantes portenhos.

Já dentro do avião, nessa ou em qualquer outra viagem, desligado de suas duras obrigações, transformava-se: mesmo roído por dentro, a gratuidade do instante era boa demais para não ser aproveitada. Sempre que uma aeromoça lhe perguntava se queria um sanduíche ou um refrigerante, respondia alegremente com uma frase que ouviu de Billy Blanco: "Quero tudo a que eu tenha direito." E era verdade.

Na chegada a Buenos Aires, houve uma dessas súbitas situações cômicas criadas por aquele homem carregado de conflitos: avião estacionado, entrou nele um médico da saúde pública, um homem ruivo e bastante calvo. Pedindo aos passageiros que exibissem o atestado de vacina, o médico estendeu a mão para Sérgio, ao mesmo tempo que dizia em tom cavo e impessoal: "Vacunación, señor." Como se estivesse recebendo um cumprimento de boas-vindas, Stanislaw (aí era ele), muito grave, apertou a mão do médico, falando claro e efusivo: "Vacunación para usted también?" O médico, rubro de indignação, expulsou-nos do avião, sem mais exigir o documento sanitário e, enquanto eu explodia de rir, ele sussurrava-me entre os dentes: "Agüenta a mão, se não a gente acaba em cana."

O dom mais surpreendente de Sérgio era esse trânsito livre entre as manifestações da vida. Ainda no dia de nossa chegada a Buenos Aires, eu o veria em atitudes múltiplas: durante o jogo dramático entre o Brasil e o Uruguai (o três a um da briga), ele deu um empurrão nos peitos dum argentino que insultava os brasileiros, chorou quando Paulo Valentim fez o terceiro gol, riu-se às gargalhadas quando o Garrincha passou indiferente entre uruguaios e entrou no ônibus com um sanduíche enorme na boca e outro na mão; e ainda conversou longamente comigo sobre suas aflições, depois de cear com entusiasmo.

Quando acordei, ele já andava pelo saguão, depois de ler os jornais todos, à cata de histórias do Mendonça Falcão - a máquina já destampada no quarto.

Fiquei seu amigo há mais de vinte anos, quando ele escrevia crônicas de música popular para a revista Sombra. Bonito, forte, elegante, inteligente, alegre, simpático - era um privilegiado sem ostentação. Só lhe faltava o dinheiro, como de resto ao grupo todo: mesmo mal pagos, tínhamos de aceitar as ofertas que a imprensa nos fazia como um favor, bicando aqui e ali, sofrendo na carne os atrasos do caixa, brigando pelo dinheirinho de cada dia. Mas o clima não era de miséria nem de tristeza: bebíamos crepuscularmente nosso uísque escocês no Pardellas da Rua México, dançávamos no Vogue, andávamos de táxi. Já que o dinheiro era pouco, o jeito era gastá-lo no essencial: o apartamento próprio que esperasse.

Eustáquio Duarte, Lúcio Rangel, Luís Jardim, Cássio Fonseca, Jarbas Duarte eram diariamente pontuais no Pardellas; Zé Lins do Rego, Rosário Fusco, Santa Rosa, Jaime Adour da Câmara, Flávio de Aquino, Simeão Leal, Luis Santa Cruz e outros apareciam com freqüência. O jazz negro era o nosso alimento: Sérgio e seu tio Lúcio Rangel ensinaram ao resto da turma o que era puro nesse setor e o que se contaminara.

Por um momento, numa fase financeira mais dura, quase o acompanhei num gesto até certo ponto desesperado: o de escrever programas de rádio. Para ele foi o início duma vida de sucesso profissional e cruel desgaste físico. Na imprensa, no rádio e na televisão do Brasil a ascensão se confunde com a queda. Sucesso nesse terreno não é poder trabalhar menos e ganhar o suficiente: é trabalhar sempre mais. Vitorioso no Brasil é o jornalista que sempre encontra mercado de trabalho; e não preços mais altos. Só chega ao chamado certo nível de vida somando diversas atividades corrosivas.

O humorista começou a surgir no semanário Comício, excelente escola de descontração do estilo jornalístico, dirigido por Rubem Braga, e Joel Silveira, onde escreviam ainda Clarice Lispector, Millôr Fernandes, Fernando Sabino, Otto Lara Resende, Rafael Correia de Oliveira, Carlos Castelo Branco, Edmar Morel, onde também apareceram as primeiras crônicas de Antônio Maria e as primeiras reportagens de Pedro Gomes.

Digo o humorista profissional, porque o da convivência com os amigos vinha do tempo das peladas em Copacabana: Sandro Moreira, João Saldanha, Mauricinho Porto, George Rangel, Máriozinho de Oliveira, Carlos Peixoto e Carlinhos Niemeyer são alguns que se lembram das histórias engraçadas de Sérgio, o Bolão.

Sua vivacidade era tão instantânea que sempre a aceitei com naturalidade. Espantava-me, isto sim, seu discernimento, agudo, preciso, a respeito de tudo: uma canção, um cantor, um vestido, um quadro, uma atmosfera, uma situação complicada. Dizia em cima a palavra exata, a observação certa, o julgamento justo.

O contraditório é que pudesse fazer humorismo uma pessoa que possuía tanto senso das proporções e da verdade escondida. Seu humorismo, bem reparado, não era o usual, pelo contrário, ele fazia humor sem caricaturar o assunto. Bernard Shaw, quando queria fazer graça, dizia a verdade. Ele também fez graça falando verdades, descobrindo verdades, tendo a coragem de ser odiado por dizê-las.

Como todo homem de sensibilidade, precisava de amigos e afeto; mas desprezava os mesquinhos, os medíocres, os debilóides, os cretinos.

Seu gosto era certo. Amava os livros e os discos, milhares de discos, discos que ouvia às vezes enquanto trabalhava, atendendo ao telefone a todo instante, recebendo amigos, contando piadas, e continuando a batucar na máquina, insistindo para que o visitante ficasse, sob a afirmação (verdadeira) de que estava acostumado a escrever no meio da maior confusão.

Eu, que apesar de tarimbado, já começo a ficar afobado no fim deste mal enramado artigo, com a redação querendo saber se já pode mandar buscá-lo, lembro a tranqüilidade de Sérgio no meio do caos, e não entendo o segredo que o dotou ao mesmo tempo de extraordinária capacidade de trabalho e da calma que deve ser a dos monges tibetanos.

De que morreu Sérgio Porto? Do coração e do trabalho.

No fim do ano passado, nas vésperas de Natal, estivemos juntos em Brasília: ele se lamentou o tempo todo no dia da volta, dizendo que ficaria ali, na ociosidade do hotel, por um tempo indeterminado. Foi difícil arrancá-lo da cama ao anoitecer. Este ano viajamos novamente juntos para São Paulo e Belo Horizonte. Foi a mesma coisa. Queria descansar, transfigurando-se no repouso, encarando com horror as atividades que o esperavam no Rio.

Na nossa última noite em Belo Horizonte, ele, Fernando, Rubem, Gérson Sabino e eu jantamos num restaurante muito bonito, que tinha de tudo, menos comida mineira. Sérgio reclamou tristemente durante todo o jantar. Queria arroz, feijão, couve, lingüiça.

Não sei por que essa lembrança me comove e serve para fechar esta página que eu não queria triste. Que a tristeza fique conosco, os amigos que o amavam.

Bibliografia:

Como Stanislaw Ponte Preta:

- Tia Zulmira e Eu - Editora do Autor, 1961
- Primo Altamirando e Elas - Editora do Autor, 1962
- Rosamundo e os Outros - Editora do Autor, 1963
- Garoto Linha Dura - Editora do Autor, 1964
- FEBEAPÁ1 (Primeiro Festival de Besteira Que Assola o País), Editora do Autor, 1966
- FEBEAPÁ2 (Segundo Festival de Besteira Que Assola o Pais), Editora Sabiá, 1967
- Na Terra do Crioulo Doido - FEBEAPÁ3 - A Máquina de Fazer Doido - Editora Sabiá, 1968

Com o nome de Sérgio Porto:

- A Casa Demolida - Editora do Autor/1963 (Reedição ampliada e revista de O Homem ao Lado - Livraria. José Olympio Editores)
- As Cariocas - Editora Civilização Brasileira, 1967

Sobre o autor:

- Dupla Exposição: Stanislaw Sérgio Ponte Porto Preta, Renato Sérgio, Ediouro, Rio de Janeiro, 1998.
- De Copacabana à Boca do Mato: o Rio de Janeiro de Sérgio Porto e Stanislaw Ponte Preta, Cláudia Mesquita.

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Máximas e Mínimas do Barão de Itararé

  • De onde menos se espera, daí é que não sai nada.
  • Mais vale um galo no terreiro do que dois na testa.
  • Quem empresta, adeus...
  • Dize-me com quem andas e eu te direi se vou contigo.
  • Pobre, quando mete a mão no bolso, só tira os cinco dedos.
  • Quando pobre come frango, um dos dois está doente.
  • Genro é um homem casado com uma mulher cuja mãe se mete em tudo.
  • Cleptomaníaco: ladrão rico. Gatuno: cleptomaníaco pobre.
  • Quem só fala dos grandes, pequeno fica.
  • Viúva rica, com um olho chora e com o outro se explica.
  • Depois do governo ge-gê, o Brasil terá um governo ga-gá. ( Ge-gê: apelido de . . Getulio Vargas. Ga-gá: referia-se às duas primeiras letras no sobrenome do novo presidente, Eurico Gaspar Dutra).
  • Um bom jornalista é um sujeito que esvazia totalmente a cabeça para o dono do jornal encher nababescamente a barriga.
  • Neurastenia é doença de gente rica. Pobre neurastênico é malcriado.
  • O voto deve ser rigorosamente secreto. Só assim , afinal, o eleitor não terá vergonha de votar no seu candidato.
  • Os juros são o perfume do capital.
  • Urçamento é uma conta que se faz para saveire como debemos aplicaire o dinheiro que já gastamos.
  • Negociata é todo bom negócio para o qual não fomos convidados.
  • O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.
  • A gramática é o inspetor de veículos dos pronomes.
  • Cobra é um animal careca com ondulação permanente.
  • Tudo seria fácil se não fossem as dificuldades.
  • Sábio é o homem que chega a ter consciência da sua ignorância.
  • Há seguramente um prazer em ser louco que só os loucos conhecem.
  • É mais fácil sustentar dez filhos que um vício.
  • A esperança é o pão sem manteiga dos desgraçados.
  • Adolescência é a idade em que o garoto se recusa a acreditar que um dia ficará chato como o pai.
  • O advogado, segundo Brougham, é um cavalheiro que põe os nossos bens a salvo dos nossos inimigos e os guarda para si.
  • Senso de humor é o sentimento que faz você rir daquilo que o deixaria louco de raiva se acontecesse com você.
  • Mulher moderna calça as botas e bota as calças.
  • A televisão é a maior maravilha da ciência a serviço da imbecilidade humana.
  • Este mundo é redondo, mas está ficando muito chato.
  • Pão, quanto mais quente, mais fresco.
  • A promissória é uma questão "de...vida". O pagamento é de morte.
  • A forca é o mais desagradável dos instrumentos de corda.

quinta-feira, 11 de junho de 2009

domingo, 7 de junho de 2009

A direita que a esquerda quer

A direita que a esquerda quer

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Olavo de Carvalho | 03 Junho 2009
Artigos - Conservadorismo

Mais que definir as regras do jogo, a esquerda cria até mesmo a identidade do adversário, colocando na "direita" quem assim lhe interesse catalogar no momento, passando por cima dos protestos subjetivos do catalogado e ignorando com frieza de femme fatale os afagos e juras de amor com que ele tenta cavar um lugarzinho no grêmio das pessoas decentes, isto é, esquerdistas.

Entre outros resultados interessantes que deixarei para comentar outro dia, o estudo dos cientistas políticos Timothy Power e César Zucco, publicado na Latin American Research Review sob o título "Estimating Ideology of Brazilian Legislative Parties, 1990-2005" (v. http://www.iuperj.br/site/czucco/czucco_files/paperlarr.pdf), mostra que, enquanto os parlamentares tidos por seus adversários como "de direita" evitam colocar-se sob esse rótulo, os de esquerda, centro-esquerda e centro se autodefinem até como mais esquerdistas do que a posição nominal dos seus partidos deixaria suspeitar.

Esse fato não era desconhecido antes da pesquisa, mas adquire com ela uma certa visibilidade cientifica que tornará mais difícil, doravante, menosprezar-lhe a importância.

As conclusões óbvias que ele impõe, e que os autores do estudo evitam declarar, já que elas transcendem os limites imediatos do que se propuseram investigar, são as seguintes:

1. A esquerda tem o domínio quase absoluto dos mecanismos culturais de estímulo e inibição vigentes nas altas esferas, demarcando a seu belprazer a fronteira entre a decência e a indecência, o orgulho e a vergonha, o mérito e a culpa. Os direitistas apressam-se em submeter-se a essa autoridade moral monopolística, não com passividade e indiferença, mas com uma verdadeira ânsia de ser aprovados por seus adversários.

2. Abdicando de todo critério moral próprio, a direita exclui-se, automaticamente, de qualquer possibilidade de combate na esfera cultural e psicológica, deixando o País à mercê da hegemonia gramsciana e limitando-se à disputa de cargos (o que implica ainda mais subserviência à facção dominante), ou então à discussão de miudezas econômico-administrativas sem nenhum alcance estratégico. O presidente da República disse uma verdade flagrante ao afirmar que os partidos de oposição não têm perspectiva de poder. Eu diria até que ele foi caridoso nesse julgamento: aos partidos de direita não falta só a perspectiva de poder, falta até mesmo a compreensão elementar do que seja o poder, que eles confundem com "cargos". Imaginar que, com cargos ou sem cargos, seja possível conquistar o poder abdicando da hegemonia, é coisa de uma ignorância tão patética que, mesmo entre os esquerdistas mais empedernidos, deve arrancar lágrimas de comiseração ante adversário tão despreparado e inerme.

3. Mais que definir as regras do jogo, a esquerda cria até mesmo a identidade do adversário, colocando na "direita" quem assim lhe interesse catalogar no momento, passando por cima dos protestos subjetivos do catalogado e ignorando com frieza de femme fatale os afagos e juras de amor com que ele tenta cavar um lugarzinho no grêmio das pessoas decentes, isto é, esquerdistas.

4. O rigor do critério de seleção para o ingresso no círculo dos bons é tão implacável, tão inflexível, que a honra suprema do esquerdismo é negada até a velhos, tarimbados e fiéis militantes de esquerda, tão logo eles cometam a imprudência de entrar num partido que a esquerda, conforme seus interesses do momento, tenha rotulado como de direita.

Pela milésima ou enésima vez, a realidade dos fatos confirma a obviedade proibida: não há política de direita sem uma moral de direita, sem uma filosofia de direita, sem uma cultura de direita, isto é, sem tudo aquilo de que a nossa direita foge esbaforida, como se foge da peste.

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Simonal - a bruxa da caça comunista

Simonal - a bruxa da caça comunista

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Ipojuca Pontes | 05 Junho 2009
Artigos - Cultura

A turma do "Pasquim", por sua vez, composta por esquerdistas que industrializavam a intolerância ideológica, sem prova alguma, passou a tratar o cantor como informante da repressão (numa das capas do tablóide, aparecia o "dedo-duro" de Simonal). O hemofílico Henfil, cartunista do jornal, na secção conhecida como "cemitério dos mortos-vivos", dava o artista como "enterrado", ao lado de Roberto Carlos, Elis Regina (então, de "direita"), Bibi Ferreira, Marília Pêra (então - e também na Era Collor - tida como de "direita"), Roberto Carlos, Pelé, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz e Nelson Rodrigues - todos considerados "simpatizantes da ditadura militar".

"Atrevo-me a dizer que as ditaduras de esquerda são piores, pois contra as de direita pode-se lutar de peito aberto: quem o fizer contra as esquerdas acaba acusado de reacionário, vendido, traidor".
Jorge Amado, Prêmio Stalin da Paz

Porque tive de conviver durante algum tempo, por razões profissionais, com Carlos Imperial e sua "Turma da Pilantragem", conheci de perto Wilson Simonal, pupilo bem-sucedido e, à época, o maior e melhor "entertainer" do nosso showbizz. Por isso, e ainda por ter testemunhado boa parte do massacre infligido ao cantor pela esquerda etílica, fui ver o documentário "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei", realizado por Cláudio Manoel, Micael Langer e Calvito Leal (Brasil, 2008).

Embora o documentário faça abordagem incompleta de episódio dos mais degradantes da vida artística nacional, ainda não devidamente explicado ao cidadão comum, "Simonal" parece ser o mais convincente produto da chamada "era da retomada" no cinema - era cujos filmes, em sua generalidade, têm por objetivo falsear a realidade histórica e manipular o inconsciente coletivo segundo preceitos da mixórdia gramsciana, que vê a produção artística como instrumento de transformação política da sociedade, a formatar um novo "senso comum" para a consolidação do socialismo pela trilha da "revolução passiva". Haja lavagem cerebral!

Vamos por partes (como diria Jack, o Estripador, ao esquartejar mais uma de suas vítimas). O Simonal que conheci nos bastidores do showbizz, na transição dos anos 1960 para 1970, era um tipo refinado de pilantra, ostensivo no tripudiar a "plebe ignara", quase um deboche público na sua afetação de artista popular que se sabia ídolo. Com efeito, Simonal cortejava certo tipo de presunção imatura que beirava o pernóstico, resquício, quem sabe, de mal-disfarçada insegurança, provavelmente assimilada nos desvãos de uma infância pobre, preta e suburbana.

Mas, curiosamente, no palco, ao vivo - ou em preto-e-branco, na televisão -, ocorria fenômeno invulgar: o "entertainer", senhor de ouvido absoluto e dotes vocais infinitos, fazia do caráter deformado - bem ao modo de um Macunaíma - elemento de atração irrecorrível, seduzindo a audiência, que babava com o seu swing, a sua picardia e a divisão rítmica perfeita do fraseado musical, num prodígio de comunicação só comparável, no plano internacional, ao de um Dean Martin ou Sammy Davis Jr.

Ademais, convém ressaltar que a atmosfera do Brasil daquela época ajudava o cantor: à margem da quizília política, o país era de fato próspero e feliz, tal como o canto do próprio Simonal. Sua população, ainda não dominada pela violência generalizada e a corrupção desenfreada da Era Lula, lotava estádios, auditórios e casas de show para ver e aplaudir de perto o mais contagiante interprete da moderna música popular brasileira (MPB).

Em tais ocasiões, entoando canções descontraídas, sacolejadas por um balanço melódico carregado no recheio de "champignon com caviar" (dizia), o cantor negro levava a platéia ao delírio. Para lembrar aqui imagem cara ao psicólogo Carl Jung, o homem do Inconsciente Coletivo, Simonal ajudava a construir no país eufórico de então, a almejada junção entre o dionisíaco e o apolíneo - isto é, a erigir as bases de uma sociedade exemplar abaixo da linha do equador.

O auge da glória veio quando o artista lançou "País Tropical", composição de Jorge Ben (hoje, Benjor), um sucesso estrondoso, sambalanço que entoava com pitadas de ufanismo o privilégio de se nascer brasileiro, sem precisar abrir mão da própria - e radiante - brasilidade. Curiosamente, foi a partir deste êxito que Simonal começou a ser devorado, em especial pelos pares sem igual talento, os invejosos e, o pior, a ralé moral comprometida com "a causa revolucionária".

A primeira parte do documentário, que adota parcialmente a técnica do cinema investigativo, bem estruturada e melhor ainda desenvolvida, trata da ascensão e glória do cantor no meio musical, a partir de depoimentos esclarecedores de personalidades como Chico Anísio, Miele, Pelé, Tony Tornado, Castrinho, Nelson Motta, Simoninha e, entre outras tantas, a critica teatral Bárbara Heliodora, ex-patroa da mãe de Simonal.

Ao acompanhar a trajetória do cantor, de forma elíptica, mas consistente, o espectador toma conhecimento de instantes chaves de sua vida, tais como, por exemplo, o aprendizado nas fileiras do Exército, onde se fez cabo datilógrafo (imagens reproduzidas do filme "É Simonal", de Domingos de Oliveira, produção de César Tedim); sua integração à "turma da pilantragem"; as primeiras aparições em clubes de subúrbio; as gravações de discos bem-sucedidos; o grande êxito televisivo em programa pessoal ("Show em Si... monal", na Record), etc., tudo a culminar no dueto com a impecável Sarah Vaughan, numa interpretação primorosa de "Shadow of you smile" - razão pela qual ficamos sabendo porque Simonal era, de fato, um "entertainer" de nível internacional.

A segunda parte do filme - que adota tom ambíguo e despreza aspectos essenciais no enfoque do desencadear da caça a bruxa - diz respeito ao levantamento do massacre moral que levou Simonal ao ostracismo e à morte. Nela, cruzam-se manchetes e recortes de jornais sobre o seqüestro do contador da Simonal Produções, Raphael Viviani - o ponto reversivo do filme. Em torno do fato, seguem-se os depoimentos (evasivos, insensíveis) de Sérgio Cabral (pai), Ziraldo e Jaguar, os inquisidores do "Pasquim", tablóide da esquerda (festiva) cevada em distorções ideológicas, fofocas, sexo, álcool, samba e rock 'n' roll.

De fato, deu-se o seguinte: em 1971, o cantor descobriu um grande rombo nas contas da sua empresa e, na prerrogativa da justa causa, demitiu o contador que considerava responsável pelo desfalque. Este, por sua vez, negando o ilícito, entrou na justiça do trabalho, pedindo grossa indenização. Dias depois, dois policiais (um deles segurança de Simonal nas horas de folga) foram à casa de Viviani e o conduziram até uma agência do Dops. Aos sopapos, o contador confessou o desfalque.

Mas, no outro dia, a mulher do contador foi à polícia e denunciou o cantor por seqüestro e coação. Como o interrogatório ocorreu nas dependências do Dops, o caso ganhou as manchetes dos jornais e os "companheiros" militantes na imprensa, que odiavam Simonal por considerá-lo um "crioulo besta", defensor do "Brasil Grande", transformaram o que seria um caso policial num fato político.

A turma do "Pasquim", por sua vez, composta por esquerdistas que industrializavam a intolerância ideológica, sem prova alguma, passou a tratar o cantor como informante da repressão (numa das capas do tablóide, aparecia o "dedo-duro" de Simonal). O hemofílico Henfil, cartunista do jornal, na secção conhecida como "cemitério dos mortos-vivos", dava o artista como "enterrado", ao lado de Roberto Carlos, Elis Regina (então, de "direita"), Bibi Ferreira, Marília Pêra (então - e também na Era Collor - tida como de "direita"), Roberto Carlos, Pelé, Clarice Lispector, Gilberto Freyre, Rachel de Queiroz e Nelson Rodrigues - todos considerados "simpatizantes da ditadura militar".

No filme, os depoimentos da patota do "Pasquim" trescalam a cloaca moral. Ziraldo, o "Menino Maluquinho por Dinheiro", querendo minimizar a sacanagem cometida, justifica-se dizendo que Simonal "queria ser o Rei da Cocada Preta" e que "ninguém (à época) tinha isenção de ânimos" - claro, uma mentira deslavada. Já Sérgio Cabral, cara de vampiro bem remunerado, confessa sem pudor que o jornaleco tinha por princípio esculhambar as pessoas que eles achavam que estavam ao lado dos militares. E o alcoólatra Jaguar, ar mefistofélico, entre risadinhas de hiena, dá a entender que o contador, afinal, podia ter mesmo roubado o cantor.

Nenhum deles manifesta a menor comoção pelo fato de terem ajudado a levar o artista à ruína, embora mais tarde, num leito de hospital, à beira da morte por cirrose hepática, Simonal apresentasse documento da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (governo Collor) que o isentava de ter sido informante do Dops.

Lá para as tantas, no documentário, aparece o ex-todo-poderoso Boni, antigo executivo da TV Globo, que abre o jogo e revela: "Simonal nunca foi julgado e vaiado pelo público, mas pela própria classe dele e pelos veículos de comunicação". (E, naturalmente, por ele também, Boni, tendo em vista que, como diretor da poderosa emissora aliada da "ditabranda", tinha força suficiente para fazer escalar o cantor nos programas musicais da casa. Como Pilatos, lavou as mãos).

Simonal, conforme se sabe, nunca foi "dedo-duro" (ninguém nunca apareceu para comprovar a acusação), mas, coitado, não tinha status intelectual e político (ou moral, se me permitem) para enfrentar de peito aberto a canalha vermelha, naquela altura já amplamente infiltrada nas redações dos jornais e nos púlpitos das igrejas, nas cátedras das universidades e nos palcos teatrais e telas, nos salões da grã-finagem (vide Nelson Rodrigues) e nos desvãos da urbe e do campo, onde, com o dinheiro roubado aos bancos e os sangrentos manuais de guerrilha do "Che" e Fidel à mão, tramavam com afinco o hoje "Estado Forte" da apodrecida Era Lula, esta, sim, repleta de alcagüetes, traidores, ladrões, bandidos e mentirosos contumazes. (A favor de Simonal, resta o fato de que nem mesmo o general Golbery, o "Gênio da Raça" e mentor dos militares no poder, conseguiu divisar com quem estava lidando e, na sua visão caolha, no que viria dar a imatura "abertura ampla, gradual e irrestrita").

Pela falta de clareza política, o documentário, ainda em cartaz, não resiste a um exame crítico apurado. O tratamento ambíguo que perpassa todo o seu desenrolar não resulta no caminho mais indicado para se extrair a verdade dos fatos expostos, perpassados de interrogações - e por isso o filme perde em consistência ética e documental, visto que ao cabo da exibição, não se sabe com clareza a quem cabe a real responsabilidade pela ruína do cantor. Todos os depoentes saem pela tangente, atribuindo a culpa às "dificuldades da época", uma abstração que não se pode punir. Por conseqüência, o espectador interessado na compreensão do caso fica no ora-veja. Talvez por conveniência, impossibilidade ou qualquer motivo ignorado, o filme isenta-se de levantar um sumário de responsabilização do massacre e adota a postura próxima a de um especialista que, dissecado o cadáver, se abstém de concluir o laudo pericial. Para citar Galileu Galileu, uma vítima consciente, "Diante da verdade, quem se contenta com a meia verdade, colabora com a mentira".

Certo, a busca da verdade é coisa difícil, árida, trabalhosa e muitas vezes só se chega a ela quando se vence todos os temores. Queira-se ou não, a caça ao cantor Wilson Simonal, antes de ser uma questão de intolerância racial, foi um ato de terror político, nutrido, discutido e tramado no seio do entourage comunista, sedimentado na cartilha revolucionária que recomenda esmagar o que lhe aparecer como adverso, mesmo que o adverso seja, como no caso de Simonal, um inocente. E quem conhece a teoria e prática comunista, para além da pregação utópica, sabe bem da capacidade destrutiva do monstro.

De todo modo, do jeito que está, "Simonal - Ninguém sabe o duro que dei" é uma celebração ao melhor e mais livre interprete da nossa moderna música popular, que permite a platéia o (re)encontro de instantes preciosos marcados pela real alegria - coletiva e individual - de cantar e viver.

Antes tarde do que nunca.

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Traquinagens do caçula Minc

Enviado por Vitor Hugo Soares -

6.6.2009
| 13h55m

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Traquinagens do caçula Minc

Da Guatemala, no começo da semana, o presidente Luis Inácio Lula da Silva passou de público um pito de “pai” incomodado com a algazarra aprontada em sua ausência pela “filharada” no Brasil. A turma abrigada no ministério fica mais indócil e malcriada à medida que 2010 se acerca e quem mais tem aporrinhado ultimamente é o caçula, Carlos Minc, do Meio Ambiente. O garoto ladino, porém, parece ter percebido o perigo da língua sem controle disparando “nomes feios” para todo lado e nos últimos quatro dias têm-se desdobrado em artes e manobras para obter o perdão paterno e dos “irmãos” de governo.

Talvez seja tarde, mas Minc faz movimentos para passar a imagem de que é daqueles que não desistem com facilidade. Nem mesmo diante das maiores armadilhas e apertos que o poder costuma aprontar. Assim, tratou de correr para o colo do “pai”, logo que este desembarcou de volta em Brasília.Na quinta-feira mesmo recebeu as palmadas e as reprimendas pessoalmente e tornou-as públicas sem pejo, em mensagem dirigida principalmente aos manos que, a exemplo dos ruralistas, querem lhe comer o fígado e manda-lo de volta para os braços dos verdes do Rio de Janeiro.

Mas o ministro do Meio Ambiente foi em seguida ao Congresso com a atiradeira em punho e fez novos disparos na cabeça dos ruralistas e seus aliados na oposição ao governo do pai. “Saí mais forte do que nunca”, proclamou Carlos Minc depois da conversa reservada com o presidente. Pelas aparências, tudo indica que sim. “Os ruralistas estão desesperados e querem me tirar, mas vou com o presidente Lula até o último dia de seu governo”, gritou para os repórteres que o esperavam á saída do Congresso.

Dia seguinte, nesta sexta-feira, 05 de junho, sorridentes “pai” e “filho” (mais o governador petista Jaques Wagner), desembarcaram juntos em Caravelas, na chamada Costa do Descobrimento, pedaço mais que paradisíaco do litoral da região sul da Bahia. Ali o governo Lula e o governo baiano comemoraram o Dia Mundial do Meio Ambiente, com a assinatura do decreto que cria a reserva de Cassarubá, projeto sustentável para famílias de pescadores e catadores de mariscos, menina dos olhos da administração federal e das ONGs ambientalistas desde o tempo da ministra Marina Silva. O projeto de proteção ambiental, no entanto, enfrenta criticas e reações severas de grandes empresários do turismo e da hotelaria, que têm projetos bem diferentes para a área de praias e recantos de tirar o fôlego à beira do Atlântico entre os municípios de Caravelas e Nova Viçosa.

Quando a semana começou a sorte não sorria assim para o ministro Carlos Minc.Não tanto - agora se sabe depois da conversa com Lula - pelo que ele aprontou no palanque do ato público realizado pela Confederação Nacional dos Trabalhadores na Agricultura (CONTAG), na sensível Esplanada dos Ministérios, em Brasília.Com boné de trabalhador rural e tudo, o ministro chamou parlamentares ruralistas (que os ambientalistas preferem denominar de “bancadas da motosserra”) de “vigaristas”. Gente que, segundo o ministro de Meio Ambiente, “encolheu o rabinho de capeta e agora finge defender a agricultura familiar”.

O ministro do Meio Ambiente, por vontade refletida ou involuntariamente, até tinha um bom gancho (no jargão corrente nas redações) para o ataque: a Semana do Meio Ambiente, com muito pouco ou nada a festejar no País, mesmo pelo mais abnegado militante da causa verde. Mas, mesmo os raros aliados que ainda lhe restam no ministério, estão convencidos de que Minc não poderia ter escolhido um pior espaço geográfico e oportunidade menos apropriada para levar para o meio da rua a algazarra interna entre ministros do governo Lula. Ainda mais na ausência do “pai”, então em viagem pela América Central.

“Tenho muitos filhos, e toda vez que o pai sai de casa a meninada faz algazarra mais que deveria fazer”, disse paternal e complacente o presidente da República, talvez seriamente incomodado com a briga entre “irmãos”, mas sem poder esconder de todo a satisfação íntima com a traquinagem do caçula em relação a adversários ferozes de seu governo. Destes, Minc só livra a cara da ruralista senadora Kátia Abreu (DEM), a quem se dispõe pedir desculpas pessoalmente, “pois além de bonita ela é inteligente”- joga o barro o traquino da “família Lula”.

De volta da costa do sol da Bahia, quando a Semana do Meio Ambiente tiver passado, tudo poderá ser diferente. Apesar das desculpas, no ambiente que Lula controla paternalmente , a portas fechadas, não falta quem da porta pra fora esteja faminto pelo fígado do ministro do Meio Ambiente. Cada vez mais, à medida que 2010 chega mais perto. Tempo eleitoral em que para alguns dos “manos” e adversários de Minc prevalece o ensinamento de Macunaíma: “Agora é cada um por si, e Deus contra”.

Mas esta é outra novela, a conferir nos próximos capítulos.

Vitor Hugo Soares é jornalista. E-mail:vitor_soares1@terra.com.br

Charge - Amarildo

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